09 dezembro 2009

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(ou Labels, ou lá o que é)

A partir de hoje este blog tem Tags. As tags são um bocadinho não-convencionais, mas são minhas, por isso...

07 dezembro 2009

A tridimensionalidade dos nossos problemas

Compreender os nossos problemas é como passar de um universo a 2D para um universo a 3D.

Eu explico.

Neste momento nós percebemos o mundo a três dimensões espaciais (mais a dimensão temporal). Mas imaginem o que seria se só víssemos duas dessas dimensões. Então tudo o que veríamos era um plano, como a superfície de uma folha de papel de dimensões infinitas. Apesar de vermos apenas duas dimensões a terceira dimensão continuava a existir, pelo que poderíamos observar fenómenos sem perceber inteiramente o que se estava a passar. Por exemplo, veríamos de repente um círculo formar-se e aumentar de tamanho, para depois voltar a diminuir e por fim desaparecer. Todos pensaríamos que era simplesmente um círculo que aumentava e diminuia, quando na realidade era uma esfera que passava através do nosso plano visível.

As pessoas vêem os problemas dos outros a duas dimensões. Os nossos problemas são tridimensionais, mas os outros vêem apenas uma pequena parte dos mesmos. É quando os problemas nos acontecem a nós que conseguimos ver a sua terceira dimensão. É nessa altura que conseguimos ver uma imensa escala de cinzentos onde os outros só vêem o preto e o branco. A terceira dimensão advém da própria complexidade dos problemas, das múltiplas consequências que as nossas decisões acarretam, do facto de cada problema ter mais que uma solução e nenhuma delas ser inteiramente satisfatória. Para quem vê a 2D só há duas soluções para o nosso problema, o caminho da direita ou o caminho da esquerda, mas nós sabemos que também podemos ir para cima ou para baixo, ou mesmo na diagonal.

Quase ninguém compreende os nossos problemas. Experimentem explicar a uma pessoa que vê a 2D que o Universo tem três dimensões e não apenas duas. Não conseguirão perceber, nunca o viram, não têm capacidade para isso. Tentem explicar-lhes o que é uma esfera e eles dirão "ah, o círculo que aumenta e diminui de tamanho, porque é que não lhe chamaste logo isso?". Não pensem que é totalmente inútil explicar a tridimensionalidade a uma pessoa que vê a 2D, algumas delas tentarão perceber, teorizarão que a terceira dimensão existe, tentarão imaginá-la nas suas mentes. Mas nunca conseguirão ver a terceira dimensão como nós a vemos.

Existem duas excepções a esta regra, dois grupos de pessoas que conseguem perceber, total ou parcialmente a complexidade dos nossos problemas. O primeiro grupo é o das pessoas que têm ou tiveram problemas semelhantes. Eles, que vêem a terceira dimensão dos seus próprios problemas, conseguem facilmente imaginar como são os nossos. No entanto, a sua resolução parecer-lhes-á tão confusa como nos parece a nós. O segundo grupo é o das pessoas que se dedicam a estudar os nossos problemas e tem uma ideia bastante boa da forma tridimensional que eles possuem. Este grupo nunca viu a terceira dimensão dos nossos problemas, mas conseguiu simulá-la em computador, transformá-la em algo que conseguem ver e usar o computador para procurar a melhor solução.

16 novembro 2009

A hinglória e triste istória do h

Depois do trabalho de hinvestigação que revelou as hinjustiças cometidas contra a manteiga, hesse nobre lacticínio, venho haqui falar de halgo que é higualmente hinjustiçado. O agá. Deixem que vos leve pelo mundo desta hincompreendida consoante e mostre as hinúmeras hatrocidades cometidas contra hela.

O agá é uma constante muito hespecial. Hé uma consoante muda, e portanto, tem a deficiência da fala. Como letra deficiente que hé, o agá hé halvo de desprezo e mesmo repugnância por parte da população portuguesa que o fala. A maioria das pessoas, hestando na presença de uma letra deficiente, tenta fingir que não a viu, fala como se hela não hexistisse. Note-se que nem todos os povos a tratam assim. Os países hanglófonos sempre tratam o agá com halgum respeito, repare-se a diferença entre eight e height, entre air e hair, entre ill e hill, e a sua himportância no meio de palavras como beehive. No hentanto, os que falam línguas de horigem latina condenaram o agá ao mais profundo desprezo, dirão "ospital" com harrogância, como se o agá não fosse preciso.

Apesar do desprezo na língua falada, os hentendidos no hassunto hacham que o agá é himportante na língua hescrita, hajuda a colorir as palavras e a torná-las distintas, dignifica palavras como emisfério, ierarquia, umanidade. É portanto na língua hescrita que o agá realmente brilha. Ou será que não?

Não referi hainda que o agá tem hamigos e hinimigos dentro do halfabeto. Hé com as consoantes que o agá se dá melhor, e por isso hé hele próprio uma consoante (porque hafinal de contas hé muda, podia ser tanto huma como houtra). Os seus melhores hamigos são o cê, o éle e o éne, que desde cedo o convidaram para se juntar a eles para tentar formar sons novos, ch, lh, nh. Com heles o agá sente-se feliz, sente que tem himportância, que a sua presença  tem um hefeito no mundo hescrito.

Por houtro lado, as vogais tratam o agá como os bullies tratam os rapazinhos mais fracos, desprezando-os e umilhando-os só por terem huma deficiência. Hé vê-los a hempurrar o agá para palavras honde não deve estar, a hafungentá-lo de palavras honde hele é necessário. E se has vogais fossem um gang, o a seria o líder. O a tem um hódio pessoal há pobre letra hindefesa, já à muito tempo. As vogais confundem os hescritores desatentos, fazem-nos pensar que o agá está bem honde não deveria hestar, que não faz falta honde ele seria mais preciso. Em consequência, a pobre letra sente-se desamparada, hexcluída, umilhada.

Heste texto é huma omenagem ao agá. Hestá hescrito desta maneira para que o agá sobressaia, para que ganhe himportância, para que verifiquem que um agá no sítio certo faz toda a diferença, que um agá no sítio errado torna as palavras hesquisitas, sem lógica, sem sentido. Não desprezem o agá, não menosprezem o agá. Apesar de ser hapenas uma consoante muda, hela faz toda a diferença.

Nota: consta que quando o halfabeto latino chegou a Portugal, todas as letras se hapresentaram, dizendo ho seu nome na nova língua. No entanto, quando chegou a vez do agá, a pobre letra muda nada disse. Depois de um momento constrangedor, foi o seu vizinho g que se chegou há frente, e tentou com halgum hesforço dizer hum houtro nome, hum que as pessoas distinguissem do seu próprio nome. Foi hassim que o h se passou a chamar agá.

09 outubro 2009

A Carta de Amor Universal

A Carta de Amor Universal foi repescada do meu antigo site, a JotaPage, e escrita já há uns bons dez anos. A intenção era fazer uma carta que qualquer pessoa pudesse entregar à pessoa amada para declarar o seu amor por ela, uma carta simpática para "quebrar o gelo". Aliás, tenho conhecimento de pelo menos uma pessoa que usou esta carta para se declarar, e foi bem sucedida.
A carta é de tal forma útil (ou será mesmo?) que até me lembrei de criar uma licença Creative Commons para a mesma! Se quiserem vejam o documento original, copiem-no, editem-no, façam o que quiserem. Em troca só vos peço uma coisa: se a carta der resultado, deixem aqui um comentário.

Creative Commons License
A Carta de Amor Universal por djeidot está licenciada segundo a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial 2.5 Portugal License. Não usar para fins comerciais!!!



        N._______:

        Olá. Precisava de falar contigo... quer dizer, queria falar... quer dizer, quero falar contigo... ou melhor, pronto, eu não vou falar contigo, portanto é queria falar contigo. OK. Queria falar contigo sobre uma coisa, uma coisa assim, pronto, uma coisa que aconteceu comigo... ou está a acontecer... pronto, eu já te digo o que é. Como eu estava a dizer, queria falar contigo, mas como eu... dado que... O que se passa é que eu sou... pronto, sou um bocado... quer dizer, pronto, não tenho jeito para falar destas coisas. De lamechices, e am... aaa... Quero dizer então que como não consigo... quer dizer, não tenho jeito (não quer dizer que não consiga!) para falar destas coisas, decidi escrever-te esta carta. Porque afinal as cartas falam por si (quer dizer, por mim), e pronto, pelo menos na carta posso escrever o que me apetecer e assim dá para dizer aquilo que eu quero... quer dizer, aquilo que eu peço... e aquilo que eu tenho e não tenho e sou e não sou e... quer dizer... pronto, e então escrevo esta carta para que... pronto, por causa disso.
        Sabes, o que eu queria era... ou melhor, o objectivo desta carta é que tu... pronto, o objectivo da carta não é nada disso. O objectivo da carta... OK, não interessa. Bem, como eu sei que não tens... quer dizer, acho que sei. Não tenho a certeza. Pelo menos a mim disseram-me que não... ou será que tens? Se calhar quando a carta chegar às tuas mãos já arranjaste um... quer dizer, se tiveres, tudo bem, desejo-te muitas felicidades, e pronto, não te preocupes comigo. OK. Se não tiveres... aaa... Estava a pensar, se por acaso não tiveres um nam... aaa... Se por acaso não tiveres um.... uma pessoa com quem tu nam... pronto, uma pessoa que goste de ti e tu gostes dela. Pronto. Estava a pensar se não podias ter... ser... Quer dizer, se eu não podia ser teu... essa pessoa. Quer dizer, se tu quiseres, claro. Não és obrigada a... pronto, não és obrigada a nada. És livre e desimpedida (quer dizer, pronto, lá está, não tenho a certeza, mas acho que és) e és livre para fazer aquilo que te apetecer. Eu também sou livre e posso fazer o que eu quero e por isso é que... OK, não interessa.
        Porquê, perguntas tu. Exacto, porquê... Ora bem, a resposta é muito simples. Eu... muito simples. Porque eu... aaa... eu estou ap... Desde a primeira vez em que te conheci... OK, não foi na primeira vez, foi um bocadinho depois. Mais precisamente a... não me lembro. A minha memória tem andado muito desconcentrada... são testes e trabalhos e mais testes a seguir e as férias são curtas... aaa... pois! Ou seja: o que eu quero dizer com isto é que eu... OK. N._____, eu... Eu tenho um amigo, que... Tu não o conheces. Não. Pronto. Esse meu amigo , sabes, gosta assim... gosta um bocadinho de uma... não, não gosta um bocadinho, gosta muito de uma... mesmo muito. Gosta muito de uma... pronto, de uma rapariga, que... que por acaso é parecida contigo! Mas tu também não a conheces. Pronto, e ele, o meu amigo, gosta muito dessa rapariga, mas não consegue dizer-lhe o que sente, e depois ela não sabe, e como não sabe, não lhe liga nenhuma, e depois ele... Pronto, e então mando-te esta carta para saber se a tal rapariga, que tu não conheces, aceita nam... quer dizer, se ela gosta dele também, do meu amigo, que tu também não conheces. Não sei se me estás a perceber...
        Pronto. É isto. Se tu... quer dizer, se ela aceitar nam... pronto, se ela aceitar a min... a proposta dele, ele ficará felicíssimo e os dois viverão felizes para sempre... ou pelo menos durante as duas primeiras semanas... Se ela não aceitar, tudo bem, ele compreende perfeitamente, e pronto, espera que os dois possam ser amigos - embora ele não lhe vá falar durante duas semanas por não ter gostado nada da resposta dela. Pronto, mas isso passa, eu hei... ele há-de se conformar. A sério, não há problema nenhum e ele só espera que continue a poder estar contigo. Com ela, quero dizer. Quer dizer, por acaso é mesmo contigo... Quer dizer... pronto. OK. Como já deves ter percebido, o amigo de que te estou a falar sou... pronto, sou... OK, esquece o amigo. N._____, eu... Já sei! Vamos supor por hipótese - e pronto, isto é só uma hipótese, hã? - vamos supor... Suponhamos que eu, por hipótese, pronto, que eu gostava de ti. Pronto. Isto é só a brincar, hã? Pronto, eu gostava de ti e pedia-te para nam...orar comigo. Ah, ah, ah! Engraçado, não é? Eu, pedir-te namoro! Eh, eh, eh! Pronto, mas isto é só por hipótese. Por hipótese, suponhamos que eu te fazia uma proposta de namoro. Será que tu aceitarias essa proposta, hipoteticamente falando?

Assinado:
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30 setembro 2009

O homem que dispensa apresentações

Nunca tive jeito para apresentações. Aquelas onde se chega ao pé da outra pessoa e se diz "Olá, sou o João, muito prazer em conhecê-lo". Sim, essas mesmo. À primeira vista não parece muito complicado, mas o facto é que há todo um ritual na apresentação que é mais complexo do que parece e onde é muito fácil falhar em pequenas coisas. As pequenas coisinhas que transformam rapidamente algo perfeito em algo, digamos, desajeitado e, em última instância, estúpido.

A começar pelo nome. Sempre me fez confusão as pessoas se apresentarem dizendo o próprio nome. Não não, o próprio nome. Não algo tão sofisticado como "Olá, sou o João", algo mais duro e ríspido, como "João." Uma apresentação que podia ser moderadamente longa e educada é substituída por "João." "Maria." Assim, às três pancadas. Isto quando os novos conhecidos não dizem os próprios nomes ao mesmo tempo, o que acontece metade das vezes, regozijando-se por ter dito o próprio nome mas ficando, afinal sem saber o nome do outro. Ainda mais esquisito acho quando o meu interlocutor decide dizer o nome completo. "Pedro Morais de Vasconcelos." OK, é mesmo assim que ele quer que eu o chame? Será que me vê mais tarde a olhar para ele e dizer "Ó Pedro Morais de Vasconcelos, passa aí uma cerveja"? Por tudo isto e mais alguma coisa, muitas vezes não me apresento com o próprio nome, por isso a minha apresentação típica é algo deste género:

O outro - "Pedro Morais de Vasconcelos."
Eu - "Olá..."

Por outro lado, se não nos dizem o nome ficamos sem saber como a pessoa se chama, o que é uma chatice. Temos de esperar que mais alguém chame por ele, ou ele se apresente a outra pessoa, e se tudo o resto falhar temos de passar pela humilhação do "Como é que te chamas, mesmo?". Eu caí nesta esparrela já algumas vezes, talvez porque quando não dizemos o próprio nome o outro não tem necessidade de o fazer também. Lembro-me que na minha adolescência convivi com uma pessoa durante meses sem saber o seu nome. O problema é que o "Como é que te chamas, mesmo?" tem prazo de validade, se deixarmos passar muito tempo deixamos de o poder usar, a humilhação seria insuportável, como se fôssemos atingidos por raios ou algo do género. Felizmente, passados alguns meses, alguém chamou a pessoa pelo nome, e eu ouvi e registei. Não tive de passar pela humilhação, ainda maior que a anterior, de a pessoa descobrir que eu não sabia o nome dela, como aconteceu neste episódio do Seinfeld.

A melhor apresentação, a meu ver, é a que é mediada por terceiros. É a terceira pessoa que diz os nomes (e nada de nomes completos!), e os outros dizem "Muito prazer". Toda a informação está dada, toda a gente ganha. O "Muito prazer", ou, na sua forma abreviada, "Prazer...", é também muito interessante na medida em que é uma expressão que pode ir do hipócrita (será que temos mesmo prazer em conhecê-lo?) ao vagamente erótico (basta levar a expressão à letra). Dá também abertura à mais elegante expressão a usar em apresentações, "O prazer é todo meu". "O prazer é todo meu" torna uma apresentação perfeita: retira-lhe qualquer traço de hipocrisia e puxa-a para o lado do vagamente erótico, o que em muitos casos é uma mais-valia. É normalmente acompanhado do prefixo "Ora essa," mas no meu entender o prefixo é dispensável. Acredite e experimente usar "O prazer é todo meu" numa apresentação: verá os olhos do seu interlocutor brilharem de satisfação.

Frequentemente há pequenas coisas que falham nas minhas apresentações. Por vezes sinto-me culpado ao aperceber-me que, depois da apresentação, a outra pessoa não ficou a saber o meu nome. Outras vezes, digo o nome mas de fugida (muitas vezes entre o primeiro beijinho e o segundo), o que dá o mesmo efeito.

E no fim de tudo, o facto de saber que vou ter uma apresentação esquisita habilita-me a fazer ainda mais disparates. Os mais recentes foram com novos colegas de trabalho: estando habituado a ver estas pessoas todos os dias e dizer simplesmente bom dia sem cumprimentar ninguém, o que é suposto fazer afinal ao conhecer um novo colega? Ou, para complicar um bocadinho mais, uma nova colega? Uma delas, ao ser apresentada por outrem, levantou-se para me dar dois beijinhos, depois mudou para o aperto de mão, e por fim desistiu ao ver que eu começava a falar, dando a apresentação por concluída ainda antes de ter começado. Na segunda cometi o erro de saber o nome dela antes de a conhecer, quando a vi pela primeira vez saltei a apresentação, chamei-a e falei com ela normalmente, com a maior naturalidade, como se a conhecesse há meses... Pode parecer arrogante ou de má-vontade, mas acreditem, não é mais que falta de jeito.

Por fim, uma nota sobre o título deste post. É óbvio que o título é um bocado exagerado. Não me posso considerar um homem que dispense apresentações, apenas um que não tenha jeito para as fazer. Ainda assim, lá me vou apresentando como posso. Olá, eu sou o... aaaa... Posso causar uma terrível primeira impressão, mas prometo que isto vai melhorando com o tempo.

(english version)

01 setembro 2009

Praia para quatro (um conto erótico)

Parece que somos nós os quatro, pensaram os dois casais naquela praia isolada do sudoeste alentejano. Descontentes, mas resignados com o que o destino tinha preparado e eles não podiam mudar, estenderam-se nas toalhas já esticadas, cada um no seu canto da pequena praia. Ambos os casais tinham vindo em busca de uma praia isolada, onde pudessem fazer o que quisessem e dar largas à imaginação, sem olhares curiosos e mesmo recriminatórios de outros. Agora, com a presença do outro casal ali perto, teriam forçosamente que impor limites à dita imaginação, muito mais apertados que os que os rochedos da praia já convenientemente lhe imputava. Cada um dos casais ignorava o que o outro pensava e dizia, assim o impunha a distância de uns trinta metros que os separava na praia, mas em boa verdade podemos dizer que ambos os casais pensavam no mesmo, aliás, para facilitar a narrativa, nem nos preocuparemos em registar em simultâneo os pensamentos dos dois casais, bastará registar os pensamentos de um deles e automaticamente se saberá que era assim que o outro pensava, peço desculpa pelo estilo de escrita mas ainda estou imbuído do espírito do saramago, faça-se jus ao seu nome, em minúsculas como ele próprio quereria, o facto é que acabei agora a viagem do elefante e, embora o elefante tenha chegado ao seu destino, eu sinto-me ainda com vontade de continuar mais um bocado. Onde íamos nós, nos pensamentos dos casais, no assunto do dia, no tema em questão, não é difícil imaginá-lo tendo em conta a situação em que se encontravam, o tema era sexo, sexo puro, duro, desenfreado, e livre como não podia deixar de ser. Basta dizer que orgasmos já tinham havido três, dois deles fruto de uma breve incursão à pequena mas densa floresta atrás dos rochedos, o terceiro mesmo ali na praia, de barriga para baixo, pelo simples roçar vagaroso e subreptício do corpo contra a areia através da toalha, algo que só pode ser dado às mulheres, que podem ter orgasmos com essa facilidade, algo verdadeiramente assustador. Mas não seria por isso que a vontade tinha passado, pelo contrário aliás, a presença do outro casal tornava tudo ainda mais excitante. Ainda por cima tinham-se conhecido há pouco, um deles tinha perguntado se aquele caminho dava para uma outra praia e o outro dito que não, este último estaria agora arrependido do que disse, ou se calhar talvez não, mas poderia ter dito que sim, e o outro teria ido por esse caminho, e ficariam talvez em praias distintas. Independentemente de prováveis ou improváveis arrependimentos, naqueles poucos segundos tinham tido a oportunidade de se olhar nos olhos, de conversarem, de se admirarem e concluirem que até se agradavam uns aos outros. Agora que o destino tinha colocado estes quatro sozinhos, por assim dizer, no mesmo barco, não seria falacioso dizer que os dois casais já se desejavam mutuamente, facto comprovado pelos relances de olhares que deitavam uns aos outros, olhares que não conseguiam evitar, mas que eram breves por força do respeito, e terminavam cedo, abruptamente, quando encontravam os olhares cruzados do outro. Imaginavam como poderiam abordar o assunto, qual deles devia ir ter com o outro, ou se os dois, o que deviam dizer, como poderia o outro reagir, podíamos simplesmente ir lá e perguntar se querem juntar-se a nós, para conversarmos um pouco, E com que objectivo, diriam os outros, não será demais recordar que cada um dos casais ignora que o outro casal pensa exactamente o mesmo, essa faculdade cabe-nos apenas a nós, espectadores, omniscientes por força do acaso, porque se assim não fosse, julgo que o problema estaria resolvido, bastaria os dois casais caminharem até meio da distância que os separa e decidissem entre si o como e o quando, já que o quê e o porquê estariam já implícitos. Agora que estávamos a pensar nisso, nem de propósito, um dos casais levantou-se, caminha para o mar. Parecem levar vantagem, ela em topless, ele obviamente também, em pé juntos correndo e saltando na rebentação das ondas, podendo ser observados em todo o seu esplendor. Não se apercebem que essa vantagem é efémera, porquanto o outro casal se prepara para empatar o jogo, quando a rapariga retira a parte de baixo do biquíni, ficando assim, não só topless, mas também bottomless, por acaso tem piada o neologismo, apesar de lógico pode levar a segundas interpretações, felizmente não teremos de pensar muito nisso, pois dada a raridade do evento não me parece que o termo vá pegar. Enquanto uns caminham pela praia e outros ficam deitados na areia, pensa-se em sexo em conjunto na areia da praia, com os pares trocados mas vendo-se uns aos outros, aprendendo e apurando as técnicas e posições, tirando prazer não só da interacção com o elemento do outro casal, mas também da visão da sua cara-metade a fervilhar de prazer, como se de um filme, escusamos de dizer de que tipo, se tratasse. Ou então algo mais comedido, para não haver constrangimento, os pares separados um do outro, mas dos dois lados da mesma rocha, privando-se assim do estímulo visual mas permitindo-se ouvir os gemidos de prazer dos outros, competindo para atingir o orgasmo em primeiro lugar, ou, quem sabe, para o fazer durar o mais possível, afinal parece que me enganei, peço desculpa mais uma vez, não é verdade que tenham sido impostos limites à imaginação, como se vê esta é de facto ilimitada e até mesmo rebelde por definição, o que pode ter sido limitada, quando muito, é a possibilidade de pôr os pensamentos em prática ou, para usar uma expressão mais corriqueira, para tornar os sonhos em realidade. Assim vão os pensamentos destas quatro pessoas, mas os pensamentos não correspondem aos actos, agora mesmo o casal que estava na água volta para as suas toalhas e o que estava nas toalhas dirige-se para o mar, ainda sem top mas já com bottom. Os olhares, esses continuam, furtivos mas inevitáveis, a admiração e o desejo crescem, mas nenhum deles se atreve a dar o primeiro passo, a situação seria muito estranha, a possibilidade de rejeição é grande e o medo ainda maior. O segundo casal voltou também para terra, resignados por não acharem mais nada que possam fazer os quatro tentam distrair-se, uns lêem, outros conversam, outros tentam dormir. Os olhares são um vício, tentam combatê-los mas não conseguem, volta e meia já estão a olhar para eles outra vez, e desta vez não fogem, ficam a admirar-se uns aos outros, até que o outro olha, só então desviam a cara, e então é a vez do outro olhar para eles estarrecido, como se do jogo da apanhada se tratasse, apanhei-te, agora és tu a apanhar-me a mim. Algo se mexe entre as rochas, e isso não é bom sinal. Os olhares dos quatro mudam, nota-se um travo de desespero, de desilusão, porque de repente se aperceberam que já não são quatro, por entre as rochas aparece o quinto elemento da praia, depois o sexto, depois o sétimo, depois o oitavo. Não estamos sós, pensam os quatro em uníssono, Vêm para ficar. Dois adultos, duas crianças, duas canas de pesca. Que raio vêm para aqui fazer, há que dizê-lo com frontalidade, porque raio escolhe uma família vir de propósito para uma praia deserta, onde era suposto dar largas à imaginação, se afinal vêm fazer o mesmo que fariam em qualquer praia. Devia haver uma lei que só deixasse vir para praias desertas quem viesse fazer coisas que só se podem fazer em praias desertas. Assim como obrigar toda a gente a tirar a roupa nas praias naturistas. Como é injusto, este mundo. Agora paciência, não há nada a fazer, até porque entretanto chegou mais gente, a praia que era deserta está agora cheia. Um dos casais, dos originais obviamente, levantou-se e prepara-se para ir dar uma volta, desanuviar, sair do meio daquela gente toda. Surpreende-se ao ver que o outro casal já fez o mesmo, está dois passos à frente dele, surpreende-os a eles mas não a nós, que sabemos que os dois casais pensam o mesmo. Vão os quatro dar uma volta. Até podiam ir todos juntos, a ideia passa-lhes pela cabeça, mas já é tarde, agora além de não se conseguirem enfrentar correm o risco de serem apanhados por alguém, agora que a maldita praia está cheia. Por isso, ainda que juntos no pensamento, vão dois para cada lado. O tempo passa, não sabemos quanto tempo porque numa praia deserta não há relógios, mas vemo-lo passar porque o sol mexe-se, galileu disse que não, que quem se mexe é a terra, mas einstein voltou a dizer que sim, andar o sol à nossa volta ou nós à volta dele é tudo a mesma coisa. Os casais já voltaram e dirigem-se para as toalhas, não sabemos o que fizeram entretanto, parece que não somos tão omniscientes assim, o acaso deu-nos a faculdade de ouvir os pensamentos destes quatro, ou pelo menos de dois deles para não ouvir em duplicado, mas não foi benevolente a ponto de nos deixar sair da praia. A praia está agora cheia de gente, mas os casais só têm olhos um para o outro, para eles mais ninguém interessa. Tristes e resignados, admiram-se ainda mais porque sabem que o fim está próximo e não querem perder mais um segundo da imagem do outro. Num dos olhares encontram-se, mas já não querem desviar a cara, ficam assim durante alguns segundos como se comunicassem com os olhos, com tal intensidade que parece que gritam, Era a vocês que nós queríamos, e tanto gritaram que o outro parece que ouviu, de repente aperceberam-se, Eles também queriam, eles queriam o mesmo que nós, a notícia súbita deixou-os aturdidos, por segundos faltou-lhes o ar, sentiram-se tontos. Viraram-se para os parceiros para lhes contar mas não conseguiram articular palavra, e então os parceiros viraram-se para eles e disseram, Estou aborrecido, vamos embora, e assim se levantaram, talvez não ao mesmo tempo mas na verdade não conseguimos distinguir quem foi primeiro. No caminho para a saída encontraram-se, sorriram mas não disseram nada.

07 julho 2009

Chegar e não chegar (eis a questão?!)

Eu sinceramente nem sei por onde começar... ou não começar...

Toda a gente já ouviu isto. "Tenho de me ir embora, ainda tenho de ir para Lisboa hoje, chegar e não chegar são três horas e depois fica para tarde".

Aparentemente isto até se percebe, quer dizer que se demora mais ou menos três horas para ir daqui a Lisboa. Podiam dizer simplesmente "demoro três horas a lá chegar" ou "até lá chegar são três horas". Porque é que não dizem isso, então? Para que é que vem com a história do "chegar e não chegar"?

Vejo um senhor da terceira fila da assistência a torcer o nariz. Sim, mas se fosse só para chegar lá eram só duas horas e meia, não é a mesma coisa que chegar e não chegar. O senhor da segunda fila também concorda.

Aqui é que a coisa começa a complicar. Aparentemente, "não chegar" também demora um certo tempo. O que é que é "não chegar"? Partindo do princípio que sempre que caminhamos para o nosso destino estamos a chegar lá, de onde vem a parte do "não chegar"? Será que a certa altura andamos para trás? E outra coisa: a parte do "não chegar" vem antes ou depois do "chegar"? Será que primeiro se chega e depois não se chega ou é ao contrário? Imaginemos que já chegámos: podemos dizer "Não posso, já estou em Lisboa mas não chegar aqui ainda leva meia hora, temos de marcar para outro dia"?

Se calhar é ao contrário. Primeiro não chegamos, depois é que chegamos. OK, então primeiro demoramos meia hora a "não chegar", e depois lá vamos nós para Lisboa. Espera, então mas "não chegámos" ainda antes de partir? Então e "partir e não partir", será que também leva tempo? E onde é que deixamos de "não partir" e começamos a "não chegar"?

O homem da terceira fila começa a acusar agora algum nervosismo. Ó homem, para que é que está a complicar, isto é tão fácil! Imagine que vai daqui para Lisboa. De certeza que não vai directo, vai parar uma ou outra vez pelo caminho...

E não parar, acrescenta o da segunda fila.

Depois de chegar a Lisboa, ainda tem de chegar...

E não chegar, interrompe o da segunda fila.

... e não cheg... Tem que chegar ao seu destino, depois chega ao seu destino e tem de estacionar o carro...

E não estacionar...

E depois pegar nas malas e entrar em casa.

E não pegar, e não entrar.

Como vê não é só chegar e está feito. Todas estas coisas podem demorar o seu tempo.

E não demorar!, remata, satisfeito, o da segunda fila.

Bem, com esta explicação fiquei sem palavras. Alguém tem dúvidas? Porque se tiverem, estes dois senhores terão o maior prazer em vos esclarecer. E não esclarecer.

27 junho 2009

Como é que sabes se aquela pessoa é um programador?

Os programadores (e os "doidos" da informática em geral) são uns bichos estranhos. O seu estado natural é enfiado frente ao computador, a dedilhar furiosamente no teclado, a escrever coisas que nem um poliglota saberia compreender. Mas mesmo quando não estão a programar, a sua atitude e maneira de estar são tão típicas da sua classe que por vezes podem ser reconhecidos a milhas de distância. É ou não verdade?

O que se segue é uma lista de pequenas expressões que denunciam a profissão do programador. As expressões foram retiradas do site Stack Overflow, que é um site de entreajuda para programadores (obviamente). As expressões que se seguem são algumas das mais votadas. Recomenda-se a leitura da pergunta original para verem todas as respostas e adicionar mais algumas que encontrarem.

Posto isto, digo-vos que poderão dizer se determinada pessoa é um programador se esta:
  • Usa parêntesis dentro de parêntesis na sua escrita normal (pelo menos é o que eu faço (às vezes)).
  • Começa a contar do zero em vez do um e considera 256 um número redondo.
  • Quando lhe fazem uma pergunta simples como Queres uma chávena de chá? faz uma pequena pausa antes de responder, como se estivesse a guardar os pensamentos anteriores no disco antes de processar a pergunta.
  • (Em alternativa) Quando lhe fazem uma pergunta simples como Preferes A ou B? responde Sim.
  • Está mais interessada em comprar e escolher um teclado do que em carros, sapatos, etc.
  • Interpreta as perguntas o mais precisamente possível, como por exemplo:
Esposa: Queres ir pôr o lixo lá fora?
Programador: Não. (posso ir, mas querer não quero)

Transeunte: Tem horas que me diga?
Programador: Tenho.

Esposa: Compra um pão de forma, e se houverem ovos, compra 6.
Programador: OK.
Esposa (depois da compra): Porque é que compraste 6 pães de forma?
Programador: Porque havia ovos.
  • Ri-se de piadas parvas como "Existem 10 tipos de pessoas: as que percebem binário e as que não percebem".
  • Se lhe perguntarem que linguagens conhece, enumera uma data delas mas não diz "Português" ou "Inglês".
  • Depois de uma longa conversa tenta lembrar-se onde a conversa começou e que passos deu até chegar ao ponto actual.
  • Tem tendência a terminar as frases com ponto e vírgula;
  • Se lhe pedirem para resolver um problema, refere todas as formas possíveis e imagináveis de o resolver.
  • Programador masculino: quando vê uma mulher atraente com um telemóvel de última geração na mão, olha primeiro para o telemóvel.
  • Diz que a sua cor preferida é #0000FF
  • Se lhe perguntarem que tipo de computador usa, não responde só com uma palavra.


01 junho 2009

Será que é preciso chegar ao Verão para as facas cortarem manteiga?

No grupo das expressões que são particularmente irritantes encontra-se a expressão "facas a cortar manteiga". Parece algo muito inteligente mas no fundo trata-se de uma expressão completamente desprovida de personalidade, algo que serve para tudo mas no fundo não explica grande coisa. Ouvir a expressão "facas a cortar manteiga" como resposta a uma pergunta não me deixa com a sensação de que a pergunta foi respondida, deixa-me, pelo contrário, a pensar em mais uma dezena de perguntas que terei de fazer.

Em primeiro lugar, o próprio objecto da expressão é ambíguo. A expressão tanto pode servir para algo que corte facilmente ("esta faca corta a carne como se fosse manteiga", "esta carne corta-se como se fosse manteiga"), como para algo que não corte bem ("esta faca só corta manteiga"). Portanto logo aí a expressão suscita a dúvida: se as facas cortam bem manteiga, isso quer dizer que cortam bem ou que cortam mal?

Mas o problema principal não é esse. O problema é assumir que todas as facas cortam manteiga. Ou pelo menos que a cortam tão facilmente como se diz. Acham que é verdade? Vejo-vos envergonhados, recusando-se a admitir, mas no fundo todos sabem o que quero dizer: Nem Sempre as Facas Cortam Manteiga! E todos chegam a essa brilhante conclusão quando vem o Inverno e está um frio de rachar, ou quando alguém se esquece e deixa a manteiga no frigorífico. Aquilo é um bloco duro e maciço, cujos bocados que cortamos são sempre maiores do que o que queremos. Se um extraterrestre descesse à terra e visse este bloco de manteiga, dificilmente concluiria que era a coisa mais fácil de se cortar à faca.

Toda a gente sabe disto. Mas ninguém assume este erro crasso, e continua-se a dizer por aí que é fácil cortar manteiga. Os mais conscientes acabaram por inventar uma série de eufemismos para que o erro não se torne tão visível: "Parece uma faca quente a cortar manteiga". "Parece uma faca afiada a cortar manteiga". "Parece uma faca a cortar manteiga mole". "Esta faca corta manteiga no Verão". "Esta faca corta manteiga nos trópicos".

Com tantos acrescentos e modificações, não deveríamos começar a achar que o problema está mesmo na manteiga? Não se consegue arranjar mesmo nada mais fácil para cortar? Experimentem cortar pudim, ou gelatina, ou banana sem casca, ou farinha, ou molho bechamel! Qualquer uma destas coisas pode ser bem mais fácil de cortar do que manteiga. Acreditem que se alguém me dissesse que algo "parecia uma faca a cortar molho bechamel", eu ficaria perfeitamente esclarecido.

Tenham um pouco de bom senso, e ajudem-me a erradicar este mito urbano da história da humanidade. E a dar à manteiga, que não é tão fraca como dizem, o seu merecido respeito.